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O Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA) sublinha aquilo que classifica de “Paradoxo Chinês” num artigo dedicado à influência da China no Corredor do Lobito, o mega-projecto ferroviário destinado a ligar o Atlântico ao interior mineiro africano e a facilitar a exportação de minerais como o cobre e o cobalto.
Segundo a organização, vocacionada para o estudo e investigação de temas políticos e económicos da África Austral, com particular incidência em Angola, a China controla, por intermédio da Mota-Engil, uma parte essencial da infra-estrutura que o Ocidente pretende utilizar precisamente para reduzir a dependência de Pequim. “É uma ironia estratégica difícil de ignorar”, lê-se no artigo referenciado pela Lusa.
O projecto do Corredor do Lobito reúne os Estados Unidos, a União Europeia e os governos de Angola e da República Democrática do Congo e procura, como recorda a análise, oferecer uma alternativa logística ao predomínio chinês na exportação de cobre, cobalto e outros minerais estratégicos provenientes da RDCongo e, em menor escala, de Angola.
O artigo conclui que, paradoxalmente, um dos grandes beneficiários finais da operacionalização do corredor é a própria China, apontando como razões o papel determinante da Mota-Engil, cuja governação está fortemente influenciada por accionistas chineses, a propriedade chinesa de parte substancial das minas que alimentarão o corredor, e a incapacidade estratégica do Ocidente, marcada por hesitações, falta de visão e um ambiente cultural pouco propenso à ambição colectiva.
A primeira razão apontada pela CEDESA prende-se com a centralidade da Mota-Engil no projecto, por se ter tornado simultaneamente um relevante operador ferroviário, um dos maiores adjudicatários de obras complementares e um actor com presença simultânea em Angola e na RDCongo, situação que poucas empresas europeias conseguem replicar com igual escala e continuidade.
Nos últimos anos, a construtora assegurou contratos essenciais para a reabilitação de troços ferroviários, a modernização de estações, a construção de pontes e obras de engenharia pesada associadas ao corredor.
O estudo recorda que a Mota-Engil é hoje uma empresa com influência chinesa determinante, contando a China com cerca de um terço das acções e com posição na administração, ainda que a empresa se mantenha formalmente portuguesa. Para o autor, a Mota-Engil tornou-se, deste modo, um instrumento híbrido: europeu na fachada, chinês na estrutura de decisão.
A segunda razão indicada prende-se com o facto de uma parte substancial das minas de onde sairão os minerais transportados pelo corredor pertencer a empresas chinesas. A China consolidou, ao longo das últimas duas décadas, uma posição dominante no sector do cobre e do cobalto na RDCongo, controlando entre 70% e 80% da produção industrial destes minerais através de participações maioritárias em 15 das maiores minas congolesas.
O Corredor do Lobito foi concebido como alternativa logística ao transporte destes recursos, que actualmente seguem maioritariamente para portos da Tanzânia e da África do Sul. Sublinha, porém, a CEDESA que alterar a rota não altera a propriedade: se os minerais continuam a ser extraídos por empresas chinesas, o corredor limita-se a facilitar a exportação de recursos controlados por Pequim, agora através de uma infra-estrutura promovida pelo Ocidente.
A China beneficia, assim, duplamente: o corredor reduz-lhe de forma significativa os custos de transporte, ao disponibilizar uma rota mais curta, mais estável e menos congestionada até ao Atlântico, e diversifica ainda as vias de exportação, tanto para mercados ocidentais como asiáticos.
Segundo o artigo, esta realidade não resulta de qualquer má gestão ocidental recente, mas de duas décadas de investimento chinês consistente, paciente e estrategicamente orientado. Conclui a CEDESA que o Ocidente hesita enquanto a China observa, investe, consolida posições e beneficia da infra-estrutura que outros financiam e promovem.
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