Jurista diz que tala não existe e pede mais ciência e menos crença sobre doenças mal interpretadas

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A “tala” não é uma doença. É essa a posição central defendida pelo jurista e analista David Mendes, em declarações à Rádio Correio da Kianda, ao desconstruir um dos termos mais enraizados no vocabulário popular angolano para descrever males físicos sem diagnóstico aparente.

Para o analista, o problema não está na doença em si, mas na forma como é lida pela comunidade. “A tala não existe. O que existe são doenças comuns, provocadas por diversos factores, incluindo bactérias e outras patologias, que acabam por ser interpretadas de forma errada”, sublinhou, defendendo que o discurso sobre saúde precisa de ganhar objectividade.

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Segundo David Mendes, expressões como “tala da perna”, “tala da barriga” ou “tala da cabeça” não traduzem realidades médicas, mas sim o desconhecimento sobre a verdadeira origem de certas patologias. Essa lacuna de informação, defende, é o que leva muitas famílias a procurar explicações sobrenaturais quando confrontadas com um diagnóstico que não compreendem de imediato — uma deriva que, no seu entender, atrasa o recurso aos serviços de saúde e compromete tratamentos que poderiam ser simples.

A solução, segundo o jurista, não passa por decretos, mas por literacia: campanhas de sensibilização que expliquem às comunidades, em linguagem acessível, as causas reais das doenças e a importância de procurar uma unidade sanitária a tempo.

O debate, no entanto, não se fecha à porta da ciência. Ouvido também pela Rádio Correio da Kianda, o especialista Eurico Gonçalves trouxe outra camada à discussão: a de que o Estado não pode ignorar o peso das autoridades tradicionais nas comunidades. Para Gonçalves, a proposta de as envolver no combate à “tala” merece ser estudada com seriedade, defendendo uma maior articulação entre o poder central, as administrações locais e as lideranças tradicionais — não para validar crenças, mas para as transformar em pontes de educação cívica e sensibilização.

Entre a urgência da ciência e o peso da tradição, fica em aberto uma pergunta que atravessa o debate sobre saúde pública em Angola: como conciliar o que a medicina explica com o que as comunidades ainda acreditam?

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