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A dívida pública angolana voltou a acelerar no início de 2026 e já representa um encargo de 1.856 dólares por cada cidadão, dos quais 1.278 dólares correspondem à dívida externa, segundo cálculos com base nos relatórios de execução orçamental e nos dados divulgados pelo Ministério das Finanças.
O valor representa um agravamento significativo face ao ano passado. No final do primeiro semestre de 2025, de acordo com dados publicados pelo Jornal Expansão, cada angolano devia cerca de 1.310 dólares ao estrangeiro, quando o stock da dívida externa se situava em 47.402 milhões USD. Apesar de a dívida externa ter registado uma ligeira redução nesse período, o cenário alterou-se nos meses seguintes e voltou a crescer, atingindo 49.838 milhões USD no final do primeiro trimestre de 2026.
Ao considerar a dívida total — externa e interna —, o peso sobre a população tornou-se ainda mais expressivo. Com uma população estimada em 38,8 milhões de habitantes, a factura da dívida pública equivale hoje a quase dois mil dólares por cidadão, um valor particularmente relevante num país onde o rendimento médio continua distante destes níveis.
Dívida cresce 11% num ano
O stock total da dívida pública angolana passou de 64.808 milhões USD no final do primeiro trimestre de 2025 para 71.979 milhões USD em Março de 2026, um crescimento homólogo de 11%, equivalente a mais 7.175 milhões USD.
Este aumento interrompe a trajectória de descida observada nos anos anteriores e devolve a dívida pública para níveis semelhantes aos registados no final de 2022, quando o montante total ainda se encontrava acima dos 70 mil milhões de dólares.
Face ao final de 2025, o endividamento aumentou 3.816 milhões USD, dos quais 2.818 milhões USD correspondem à dívida externa e 998 milhões USD à dívida interna.
Eurobonds tornam-se o principal credor
Grande parte do crescimento da dívida externa está associada à emissão de novos Eurobonds realizada em Março deste ano. O Estado angolano captou 2.500 milhões USD nos mercados internacionais através de duas emissões: uma tranche de 1.500 milhões USD a sete anos, com juros de 9,25%, e outra de 1.000 milhões USD a onze anos, remunerada a 9,8%.
Embora parte da operação tenha servido para recomprar títulos antigos no valor de 500 milhões USD, o efeito líquido foi um aumento de cerca de 2 mil milhões USD no stock de Eurobonds.
Como resultado, os investidores destes títulos passaram a ser os maiores credores de Angola, ultrapassando instituições que durante anos dominaram a carteira da dívida do País.
Cada angolano deve actualmente cerca de 317 USD aos detentores de Eurobonds, valor superior ao montante devido individualmente a várias instituições multilaterais.
China perde peso, mas continua central
Apesar da redução gradual da exposição à China, o país asiático continua entre os maiores credores de Angola.
Segundo os dados mais recentes, cada angolano deve aproximadamente 306 USD à China, muito abaixo dos cerca de 371 USD registados em meados de 2025 e dos mais de 800 USD observados em 2017, quando a dívida chinesa atingiu o seu pico.
A dívida ao Banco de Desenvolvimento da China (BDC) caiu para 6.498 milhões USD, menos de metade dos 13.578 milhões USD registados no final de 2021.
Ainda assim, somando a dívida bilateral e comercial, Angola continua a dever cerca de 11.882 milhões USD à China.
O problema não é apenas a dívida, mas a utilização do dinheiro
Especialistas alertam que a preocupação não reside apenas no aumento do endividamento, mas sobretudo na forma como os recursos obtidos são utilizados.
Os dados da execução orçamental mostram que o Governo continua a consumir a maior parte da receita fiscal em despesas correntes, incluindo salários da função pública, aquisição de bens e serviços, pagamento de juros e outras despesas administrativas.
Sem capacidade para gerar poupança pública significativa, o Estado acaba por depender cada vez mais de novos financiamentos para sustentar o funcionamento corrente da máquina governativa e honrar compromissos anteriores.
Este modelo cria um ciclo difícil de quebrar: o Estado contrai dívida para financiar despesas correntes, aumentando o stock da dívida; posteriormente, uma parcela crescente das receitas é destinada ao pagamento de juros e amortizações, reduzindo a margem para investimentos produtivos e obrigando à contratação de novos empréstimos.
Mais de metade das receitas vieram de financiamentos
Os números do primeiro trimestre de 2026 ilustram esta dependência.
Cerca de 56% das receitas do Orçamento Geral do Estado (OGE) tiveram origem em financiamentos, enquanto quase metade das despesas esteve relacionada com o pagamento de amortizações, juros e comissões da dívida pública.
Em termos económicos, esta situação é frequentemente descrita como “endividar-se para financiar despesa corrente”, uma prática considerada pouco sustentável a médio e longo prazo.
Investimento público continua dependente de crédito
O Governo mantém investimentos relevantes em infra-estruturas e obras públicas, considerados fundamentais para o desenvolvimento económico e social.
Em 2025 foram executados cerca de 6,8 biliões de kwanzas em investimentos públicos, superando o valor inicialmente previsto. Para 2026 estão orçamentados aproximadamente 5,4 biliões Kz, dos quais 1,7 biliões Kz já foram executados no primeiro trimestre.
No entanto, a quase totalidade destes investimentos continua a depender de financiamento externo e interno, precisamente porque a receita fiscal disponível é absorvida por despesas correntes e pelo serviço da dívida.
Encargos para as futuras gerações
Apesar de o rácio dívida/PIB permanecer em 46,4%, abaixo dos níveis críticos registados no passado, economistas alertam que a trajectória recente merece atenção.
O crescimento contínuo da dívida, combinado com taxas de juro elevadas nos mercados internacionais e com a incapacidade de gerar poupança pública, pode transferir encargos significativos para as próximas gerações.
Com cada angolano a carregar hoje uma factura média de 1.856 dólares, dos quais 1.278 dólares são devidos ao exterior, o desafio para os próximos anos será não apenas controlar o crescimento da dívida, mas garantir que os recursos obtidos através dos financiamentos sejam convertidos em crescimento económico capaz de sustentar o seu pagamento. NA
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