África importa 70% dos combustíveis e paga a factura da guerra

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A inflação nigeriana abrandou em Setembro, mas a componente da energia disparou. Desde o início da guerra no Médio Oriente, os preços da gasolina e do gasóleo subiram por todo o continente, que importa cerca de 70% dos combustíveis que consome. A OPEP calcula que África precisa de pelo menos 125 mil milhões de dólares para investir na refinação.

Os preços dos combustíveis voltaram a subir na Nigéria, apesar de a inflação ter abrandado ligeiramente. Segundo o Gabinete Nacional de Estatística (NBS), a taxa de inflação homóloga desceu para 14,63% em Setembro, contra 15,39% em Agosto, graças sobretudo à queda dos preços dos alimentos. A energia seguiu o caminho inverso: em termos mensais, a inflação energética saltou de 0,36% em Agosto para 5,38% em Setembro.

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A pressão continua nas bombas. Esta semana, a refinaria Dangote voltou a aumentar o preço da gasolina à saída do depósito, em Lagos, para 1348 nairas por litro, e outros distribuidores ajustaram também os preços. O Governo federal está a negociar um tecto de 1350 nairas por litro à saída das refinarias e dos terminais de importação, para travar as subidas bruscas nos postos de abastecimento. Desde que acabou com o subsídio aos combustíveis, em 2023, a Nigéria deixou os preços acompanharem a cotação internacional do petróleo, que se mantém acima dos 100 dólares por barril.

A Nigéria não é caso único. Desde o início da guerra entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irão, do outro, em Fevereiro, e do encerramento do Estreito de Ormuz, os preços dos combustíveis subiram em grande parte de África. Egipto, Marrocos, República Democrática do Congo, África do Sul e Namíbia aumentaram os preços logo nos primeiros meses do conflito, alguns deles apesar de cortes nos impostos sobre os combustíveis. Esta semana foi a vez do Quénia, que subiu 6% o preço máximo da gasolina e 4,5% o do gasóleo e prolongou até Janeiro a redução do IVA sobre os combustíveis, de 16% para 8%.

A margem de manobra é estreita, porque África importa cerca de 70% dos combustíveis que consome. Mesmo os grandes produtores de petróleo bruto dependem do exterior para abastecer o mercado interno de gasolina e gasóleo.

A crise deu novo fôlego à busca de maior independência energética. Alguns países estão a acelerar os concursos para atribuir concessões de petróleo e gás. Outros querem construir refinarias para deixar de exportar crude e importar produtos refinados.

A factura, porém, é elevada. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) estima que África precisa de pelo menos 125 mil milhões de dólares de investimento em refinação até 2050. O valor inclui os projectos em curso, os novos projectos e a manutenção das unidades existentes. A estimativa consta de um novo estudo sobre as perspectivas energéticas do continente, apresentado na African Energy Week, na Cidade do Cabo. É mais do que o investimento directo estrangeiro total que África recebe num ano.

Segundo a OPEP, as refinarias africanas processam hoje menos de três milhões de barris por dia e funcionam a cerca de 55% da capacidade. A organização prevê que a capacidade de destilação cresça 3,2 milhões de barris por dia, para cerca de 7,9 milhões em 2050, com uma taxa de utilização próxima dos 80%. Mesmo assim, ficará aquém da procura, que deverá passar de 4,9 para 9,2 milhões de barris por dia.

“Ao falar de capacidade, temos também de falar de quanto obtemos destas refinarias”, afirmou Abderrezak Benyoucef, responsável pelo departamento de estudos energéticos da OPEP. O secretário-geral da organização, Haitham Al Ghais, defendeu que “não se pode nem se deve esperar que África abdique de oportunidades de desenvolvimento, de segurança energética e de erradicação da pobreza”. Pediu também mais acesso a financiamento para projectos energéticos adaptados à realidade de cada país.

África tem cerca de 120 mil milhões de barris de reservas provadas de petróleo e 18 biliões de metros cúbicos de gás. A OPEP prevê que a população do continente aumente em cerca de 917 milhões de pessoas até 2050 e que o PIB cresça 4,4% ao ano, mais do que em qualquer outra região do mundo. JM

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