Marginal de Luanda, o cartão-postal que expõe o melhor e o pior de uma cidade que faz 450 anos

Requalificada para simbolizar a modernidade urbana da capital, a Marginal de Luanda é, também, hoje, palco de um drama silencioso: fome, exclusão social e infância interrompida.

Reabilitada e reinaugurada em 2012, num investimento de mais de 370 milhões de dólares,  a Marginal da Baía de Luanda, um dos espaços mais emblemáticos do País, vai perdendo, gradualmente, o seu brilho. Parques de diversão degradados e abandonados, jardins secos e pessoas ao relento são apenas alguns retratos do maior cartão-postal da cidade capital.

Ao amanhecer, quando o sol começa a raiar sobre o Atlântico e a cidade desperta para o seu frenesim diário, a Marginal de Luanda revela a profundidade da desigualdade social em pleno coração da capital do País.

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De um lado, turistas e moradores, em lazer ou prática de exercícios físicos, desfrutam da orla marítima. Do outro lado, crianças, jovens e mulheres com bebés ajeitam, expostos à fome e ao abandono, os papelões que servem de cama, e preparam-se para mais uma jornada de mendicidade.

Descalços, roupas gastas e sujas e olhares atentos a cada movimento, posicionam-se, estrategicamente, ao longo dos mais de três quilómetros de um local onde espaços verdejantes e edifícios de arquitectura clássica e moderna se cruzam.

Conhecem os horários de maior circulação, os percursos mais frequentados por turistas e nacionais, e os pontos onde a compaixão costuma render moedas.

Rodrigo António, conhecido por Riquilson, vive há mais de dois anos na Baía da Cidade de Luanda. Dorme onde o corpo aguenta: bancos de betão, debaixo de pontes e sobre relvados. Os papelões substituem o colchão e a manta; os jardins, a mesa; a água usada para regar as plantas é a mesma que usa para beber, lavar a roupa e fazer a higiene diária para manter o pouco de dignidade que lhe resta.

Com 13 anos recém-completados, Riquilson abandonou os estudos na 3.ª classe. Fugiu de casa por maus tratos. Morava com o pai e a madrasta e mais dois irmãos, no bairro Malanjino, uma zona periférica luandense que, como tantas outras, é marcada por pobreza extrema, criminalidade e falta de saneamento, água e de luz. O adolescente carrega consigo um sonho que resiste à dureza do seu quotidiano: ser polícia.

Durante o dia, engraxar sapatos é a saída para a sobrevivência. Em dias ‘bons’, consegue angariar cerca de mil Kwanzas, que utiliza para comprar comida e dividir com outros meninos de rua, a quem chama de “irmãos”. É a família que ganhou nas ruas.

Nesse ‘lar’ de Riquilson, as refeições são improvisadas. As latas servem de panelas. As mãos, aquelas que, durante o dia, engraxam sapatos e vasculham caixotes de lixo à procura de comida, substituem os talheres.

Ao contrário de Riquilson, Manuel Gaspar nunca frequentou a escola. Fez dos bancos das esquinas da Marginal o seu ‘habitat’ há mais de três anos. Não tem dúvidas de que a rua lhe oferece menos violência que o ambiente familiar.

“A minha madrasta e o meu pai batiam-me todos os dias”, denuncia o rapaz de 12 anos, que, além do contexto de violência doméstica que o fez abandonar o lar, convivia num contexto familiar onde o álcool e as drogas faziam morada.

Desde os 9 anos, Manuel, de corpo franzino, circula entre restaurantes à procura de comida. Descreve um ambiente de rua marcado por exploração e abuso entre crianças e jovens mais velhos, num contexto onde a fome, o medo e o abandono se tornam rotina. É uma dura realidade, entretanto, impossível de evitar, por falta de alternativas, confessa. E&M

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