CEAST demarca-se mas órgão associado é co-subscritor de carta para boicotar jogo Angola e Argentina

A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) afirma desconhecer as discussões que estiveram na base de uma carta aberta a solicitar o cancelamento do jogo amistoso de futebol entre Angola e Argentina, em Luanda, de que são subscritoras várias organizações da sociedade civil, inclusivamente a Comissāo Episcopal de Justiça e Paz e integridade da Criação, órgão afecto à própria CEAST.

Numa nota à imprensa, a CEAST informa que este assunto “nunca foi tema de discussão em nenhum” dos seus encontros, e observa que os documentos que vinculam esta instituição afecta à Igreja Católica são assinados e chancelados pelos bispos ou por um dos bispos.

Em causa está uma carta assinada a 19 deste mês por organizações da sociedade civil como Pro Bono Angola, Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Friends of Angola (FoA) e Comissão Episcopal de Justiça e Paz e Integridade da Criação da CEAST.

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Na missiva, que ganhou destaque na media desportiva internacional, os subscritores pedem o cancelamento do jogo marcado para Novembro, nos festejos dos 50 anos da Independência Nacional, opondo-se à “ostentação e gastos milionários” envolvidos na organização deste evento.

Jornais como Marca, diário desportivo espanhol, e O Jogo, de Portugal, dedicaram espaço nas suas páginas à carta na qual os autores do documento dizem a Lionel Messi e aos jogadores e dirigentes do futebol  argentino que o apelo “não se opõe ao desporto nem aos laços de amizade entre os povos”, mas se trata de um “grito de consciência diante da dolorosa realidade vivida por milhões de angolanos”.

Recordam que, apesar de Angola possuir “uma enorme quantidade de riquezas naturais”, como petróleo, minerais, biodiversidade, recursos hídricos e mais de 11 milhões de hectares de terras aráveis, a esmagadora maioria da população “vive em extrema pobreza e não usufruem” dessas riquezas.

“Enquanto recursos públicos são canalizados para eventos desportivos de grande porte, milhares de crianças e adultos enfrentam fome crónica, anemia severa e insegurança alimentar generalizada”, reforçam os subscritores da carta aberta.

Declaram que investir milhões de dólares num evento desportivo, enquanto milhares passam fome, hospitais colapsam e a repressão se intensifica, não é uma prioridade legítima — “é um insulto à dignidade humana”.

E finalizam com apelo: “Senhor Messi, senhores da AFA [Associação do Futebol Argentino] e jogadores da selecção argentina: o vosso talento inspira milhões e ultrapassa fronteiras. A vossa presença em Angola teria um enorme peso simbólico. Por isso mesmo, a recusa em participar neste jogo seria um gesto nobre de solidariedade internacional e de respeito pelos direitos humanos”.

A partida de futebol entre Angola e Argentina, recorde-se, foi anunciada pelo Presidente da República, durante o congresso da JMPLA, braço juvenil do partido no poder, em Novembro do ano passado, tendo João Lourenço associado o jogo às celebrações dos 50 anos da Independência Nacional.

A propósito deste jogo,  o jornalista português, Rui Almeida, conjecturou um eventual orçamento e questionou a data para o referido jogo: “Para as datas FIFA de 2025, a Argentina já tem todos os jogos marcados, inclusive um jogo na Ásia, cujo valor está em 6 milhões de dólares e pode aumentar com a presença de Lionel Messi. Então, não vejo onde Angola pode encaixar este jogo, cujo convite já foi lançado”.

Não obstante estas dúvidas, o duelo de futebol entre os Palancas Negras e a selecção da Argentina tem ganhado corpo nos últimos meses, com concertações entre a Federação Angolana de Futebol (FAF) e a Associação do Futebol Argentino (AFA).

Em Abril deste ano, os presidentes das duas instituições desportivas reuniram-se na cidade de Buenos Aires, capital argentina, para tratar de detalhes do jogo marcado para 14 de Novembro próximo. Na ocasião, Alves Simões, líder da FAF, avançou que estava quase garantida a vinda do craque Lionel Messi a Luanda.

E, na semana passada, a Associação do Futebol Argentino (AFA) confirmou a deslocação da sua selecção, actual campeã em título do Mundial de futebol, para realizar um jogo amistoso em Luanda com a selecção de Angola.

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